
HEIDER BROISLER
Romancista, contista, poeta, letrista e literatura infantil.
APLAUSOS E ILUSÕES
1
Um sentimento competitivo, sobretudo entre as bailarinas, era o habitual na sala de ensaio da renomada companhia de dança Leonora Strauss. O desejo pela performance perfeita as levava à exaustão física e mental. Giovanna Fazoli, a mestra de balé, conduzia os ensaios com mão de ferro. Não aceitava nada além da perfeição. A companhia ensaiava um balé clássico intitulado Amor e Sangue. A peça, composta pelo jovem compositor Garya Komarov e coreografada pela também jovem coreógrafa Faina Popova, narrava o duelo entre duas jovens mulheres cujo desígnio era ganhar o coração de um homem recém-chegado do caos vivenciado durante uma guerra sangrenta. A companhia estava animada com a possibilidade de uma curta turnê internacional. Era imperioso contemplar Beatriz Schneider concluir o último ato. Movimentos e gestos impecáveis. Ela era dona de uma beleza e feminilidade que beiravam o misticismo. Beatriz interpretou a vilã com a mesma perfeição com que fizera na semana passada, quando interpretou a heroína. O único bailarino hétero do elenco, Isaac Guisso, perdia-se em pensamentos ao ver bailarina e personagem se fundirem com tanta magia em uma só pessoa... (continua)...
2
Havia um casarão vizinho à companhia Leonora Strauss. Passou por uma recente reforma. Foi adaptado para servir de residência e consultório para o psiquiatra e psicanalista, Oliver Miranda, de trinta e poucos anos. Ele estava no meio de uma sessão com uma de suas pacientes, Lívia Andrade, uma mulher de meia idade — na porta dos cinquenta anos — incapaz de se libertar de velhas mágoas devido à sua falta de habilidade para olhar para dentro de si mesma. Lívia se queixava de velhas amizades. Jurava de pé junto que a prejudicaram ao longo de sua juventude. Lívia trabalhava como gerente de hotel. Acostumara-se com seu emprego, mas seu sonho era ser design de moda. Chegou a trabalhar na área quando jovem. Vítima de fofocas e calúnias, ela perdeu o emprego e não conseguiu se reerguer. Foi traída por uma colega que almejava seu lugar — a traidora foi demitida por incompetência nove meses depois. “A raiva é um sentimento horrível e autêntico. O afeto é agradável e nobre, mas nem sempre é autêntico. É fácil fingir afeto ou simpatia. Quem consegue fingir raiva?”, perguntou Oliver. Ele tentava acalmá-la. Queria lhe mostrar que sofrer de raiva fazia parte da natureza humana. Preparava-a para o próximo passo: orientá-la-ia na direção de suprimir tal sentimento — a raiva sempre nos conduz a pensamentos carregados de ansiedade e sofrimento. Lívia era bonita e atraente. Nunca frequentou academia. Dona de pernas grossas e uma bunda redonda, harmoniosa e durinha. Passou por muitos relacionamentos fracassados... (continua)...
JÚLIA
Fevereiro de 2001. Instituto de Distúrbios do Sono Dr. Olívio Matarazzo. O relógio na parede marcava três e meia da madrugada. O silêncio era desolador. Tomara conta do prédio, projetando uma falsa calmaria que apenas camuflava a agonia daqueles impossibilitados de usufruir do inconsciente prazer de dormir — pobres almas torturadas de olhos arregalados e incapazes de se desconectar das percepções mais dolorosas vindas do caos exterior direto para as profundezas de suas mentes. * Fevereiro de 2011. Empresa de tecnologia Iris VisionTech. Sala de reunião. Ao fundo, a Sonata para Piano nº 14, primeiro movimento, de Beethoven enriquecia o ambiente, deixando um aroma melancólico e inspirador no ar que somente alguns poucos predestinados — ao transgredirem os limites da morte — conseguem perpetuar. O arquiteto de cloud computing, Rafael Villa, revia os detalhes de um projeto. Estava acompanhado por Sylvia — sua assistente sênior. Rafael era um homem na faixa dos quarenta e poucos anos com cabelos pretos, levemente grisalhos. Sylvia era uma mulher alta e magra, de vinte e seis anos, com cabelos castanho-claros. Sua assistente fora acometida por um forte desalento após romper um noivado de três longos anos. O tempo caminhou a passos lentos enquanto o mundo sorria a lhes oferecer uma mesa cheia de ternura e sonhos não realizáveis... (continua)...
O DESPERTAR DE ÍRIS
O Nascimento.
A caixa fora deixada por engano no velho e sujo armazém localizado em uma antiga estrada vicinal, próxima à Serra de Todos os Anjos. Não se deram conta de que aquela caixa continha uma bioandroide nomeada Íris. Ela era linda; aparentava ter vinte e poucos anos — uma máquina perfeita, inerte e adormecida, projetada e construída com material orgânico: olhos, pelos, pele e odor; dotada de uma inteligência artificial movida por uma rede neural quântica. Conforme fora programada, Íris abriu os olhos às 17h do dia 30 de julho. Seria seu nascimento? Teria Íris um mapa astral como nós humanos, acolhidos por tantas benesses e maldições? Autoconsciente; reconhecendo a si mesma. Libertou-se da caixa de madeira com facilidade. Arrebentou a porta de metal e deixou o armazém sem destino certo. Estava jogada à sua própria sorte. Era um fim de tarde frio e nevoento. Íris vestia apenas calça e camiseta brancas. Não sentia frio, fome, raiva, alegria ou dor; contudo, tinha consciência de que tinha uma missão a cumprir: misturar-se entre os humanos para coletar informações de como pensavam e agiam. Sem pressa ou ansiedade, Íris adentrou-se em uma floresta a se perder no horizonte... (continua)...
25 Poemas:
O ESPELHO NÃO MENTE
Sinto o cheiro do passado quando entro naquela sala: uma passagem obscura no tempo, que ninguém mais consegue ver. O velho espelho abandonado no canto sujo, confrontando meu personagem tão punido pelo tempo — algo triste de se ver. Eu! Quem é essa pessoa que tanto me persegue? É inútil descarregar toda a raiva na vida, quando minha própria imagem me atormenta. Dissimulação — isso é tudo que vejo. Uma vida cheia de performances perfeitas — nada é real. A arrogância colada à pele; a felicidade escorrendo pelos meus dedos; eu me camuflo sob uma falsa maturidade, que consome minhas energias. A desonra acompanha a morte física até o último suspiro. Minha história se apoia em pilares invisíveis a olho nu e tão profundos que ninguém percebe as deformidades, que se escondem no fundo do meu eu. É fácil esconder-se dos outros. Quero ver se esconder de si mesmo. Maldito espelho! Deixe-me sozinho com minhas ilusões — feridas emocionais não cicatrizam. Não posso aceitar a verdade.
Quebrarei esse velho espelho; então, nunca mais precisarei olhar para mim mesmo.
VIBRAÇÕES
Há espaço para mim em teus pensamentos? São só pensamentos que formam o teu caráter? Consegues ver-me do alto de tua magnitude? Sim, consegues, mas não te sensibilizaste. Deixa-me absorver teu mundo enigmático. Para muitos, pareces fria; Para mim, tu és indefinível e evasiva. Teu talento supera os limites comuns. Teu autocontrole é invejável. Uma vez absorvido por teu magnetismo, cobicei (preciso disso) ser digno de teus pensamentos; talvez um dia, seja digno de teu corpo. Minha psique (charlatã), outrora imune aos males humanos, falsamente majestosa ante os tropeços da vida real, derreteu-se ante tua intelectualidade sagazmente sensual — a beleza além-corpo. Meu orgulho e inocência queimaram minhas asas. O arrebatamento consumiu-me, destruindo meu frágil ‘eu’; tentei seguir tua luz — coitado de mim! Teus olhos castanhos desnudaram meus pensamentos. Meu teatro desmoronou, derretendo minhas máscaras como se eu fosse uma fraude. O que fazer? Tua consciência apoderou-se do meu ser: se pensas, logo existo.
Destruíste-me (reconstruíste-me) — sou parte de ti!
(continua)...
A CASA DOS VERSOS SILENCIOSOS
CAPÍTULO 1
A Juventude
1
A cidade de New Rochelle amanhecera fria. O céu estava nublado. Poderia chover a qualquer momento. Os moradores estavam mais melancólicos que o normal.
Benjamin Clark, Paul Chang e Mike Harris eram típicos estudantes do ensino médio — jovens imaturos cheios de preocupações triviais. Pegaram a trilha oeste do parque Thompson a caminho do bairro onde moravam. A trilha não era a preferida de caminhantes e corredores. Era estreita e quase coberta pelo mato. Benjamin se cansava facilmente da costumeira conversa mole de seus colegas. Distraiu-se ao notar o balé de uma revoada de estorninhos — as aves deixaram a atmosfera ainda mais bucólica.
Eles se aproximaram de uma antiga sede de fazenda. A propriedade estava abandonada havia muito tempo. Só vândalos e viciados costumavam visitá-la. Benjamin se interessava pela história daquele lugar. Como era de costume, não pararam. Seguiram em frente a caminho de suas casas.
“Por onde anda o teu primo? Faz tempo que eu não o vejo”, Paul perguntou a Mike.
“O Bob?”
“Ele mesmo.”
“A família dele se mudou para Utah.”
Benjamin e Paul foram pegos de surpresa. Encararam Mike à procura de respostas.
“Quando?”, insistiu Paul.
“Mês passado.”
Os dois refletiram sem se importar de fato com o assunto. Bob era irrelevante — um garoto antissocial, que uma vez por outra, metia-se em confusões.
“Ele está gostando de Utah?”, perguntou Benjamin.
“Sei lá! Ele me enviou fotos de uma caverna”, respondeu Mike, desinteressado na história do primo.
Benjamin fechou a cara, e disse “Eu não gosto de cavernas.”
“Eu não te entendo, Benjamin. Você detesta lugares apertados, mas vive entrando em casas velhas e imundas”, disse Paul, encarando o amigo.
Ele sorriu. “É diferente. Casas são casas. Não importa se estão habitadas ou não.”
“Por que ele te enviou fotos de uma caverna?”, perguntou Paul.
“Sei lá! O Bob tem um parafuso a menos.”
Os rapazes andaram o resto do caminho reclamando da última aula de literatura. Estavam chateados porque teriam de apresentar um trabalho sobre poemas de autores e autoras contemporâneos. Pularam um pequeno córrego. Andaram mais alguns metros. Saíram do parque Thompson.
*
O bairro onde moravam ficava longe do centro da cidade, mas era próximo à escola — uma área tranquila com casas antigas de tijolos em estilo europeu. As propriedades tinham terrenos grandes e eram cobertos por gramados verdes. Pequenos bosques demarcavam suas divisas. Os rapazes pararam em frente da casa de Paul.
“Vocês vão à festa do Jeffrey?”, perguntou Paul.
“Claro que sim. Só os otários ficarão de fora”, respondeu Mike.
Mike se virou para Benjamin, e disse “A Pamela me disse que a Annette estará na festa.”
“Eu sei. Eu conversei com ela”, disse Benjamin.
“Você vai?”, perguntou Mike, com um tom provocativo.
“Claro. Eu combinei com ela”, respondeu Benjamin.
Não era o que Mike e Paul queriam escutar. Os dois estavam torcendo para que Benjamin não tivesse coragem de ir à festa com Annette Larson — lampejos de inveja saltaram de seus olhos — Annette era uma das garotas mais populares da escola. Ela era uma das estrelas do time de basquete feminino. Esforçava-se para ser a protagonista em tudo que era lhe destinada. Os três colegas se despediram com aqueles gestos estranhos feitos com as mãos. Paul entrou em sua casa. Mike e Benjamin seguiram em frente.
*
Benjamin virou à direita. Entrou numa viela onde as casas contrastavam com o restante do bairro. Era antiga, estreita e acanhada. Remontava à época que a região era uma área rural. A cidade cresceu, mas a viela sobreviveu. Benjamin gostava de passar perante aquelas casas floridas e pequenas quase grudadas umas nas outras e bem próximas à rua — pareciam casinhas de bonecas metodicamente colocadas sob as sombras das árvores mais generosas da cidade.
Saiu da viela e virou à esquerda para pegar a rua onde morava. O sentimento de paz e harmonia desaparecia quando ele se deparava com a visível discrepância entre as casas da viela e as majestosas casas do bairro. Sentia-se preso a uma fria e impessoal vizinhança cheia de casas com fachadas imponentes, perfeitas para camuflarem as mais terríveis imperfeições humanas. A paz e harmonia dava lugar a um sentimento de vazio.
Chegou à sua casa caminhando rente a um muro baixo de pedras que cercava a propriedade. O terreno era grande: arbustos e pequenas árvores acompanhavam o muro em toda sua extensão. Passou por um jardim e uma pequena fonte de água localizada sobre uma rotatória. Os carros de seus pais estavam estacionados em frente da garagem. Entrou pela entrada social. Subiu as escadas a caminho do seu quarto enquanto seus pais conversavam na cozinha.
Abriu a gaveta de um pequeno armário para retirar a foto de uma antiga casa — uma mansão inabitada há muito tempo localizada ao norte do Condado de Westchester. A propriedade tinha um grande e verde gramado margeado por um jardim com um design nada ortodoxo — longe da magnitude do passado. Benjamin ficava confortável ao se aventurar, mesmo que sozinho, por lugares esquecidos — um comportamento um tanto esquizoide, que muitos não compreendiam.
Lembrou-se de Annette. Estava morrendo de medo de amarelar e virar chacota diante de seus colegas. Quebrava a cabeça em como agiria com ela na festa. Sentou-se na cama e imaginou o momento certo para beijá-la — teletransportou-se para um sofá aconchegante colocado num ambiente à meia-luz; concentrou-se na boca e nos cabelos da garota e a beijou ardentemente. O ato imaginário durou dez segundos. Sentiu-se um tolo.
Levantou-se em direção à sua escrivaninha. Ligou seu laptop para verificar o perfil de rede social de Annette: tinha muitas fotos e vídeos da garota praticando esportes, festejando com suas amigas, indo a encontros sociais e viajando mundo afora. Ele se arrependeu de ver o perfil. Sentiu medo. Não tinha nada em comum com a garota com quem se encontraria na festa, mas desistir não era uma opção, pois além de querer provar aos seus colegas que também podia ser capaz, no íntimo, desejava estar na companhia daquela bela garota de traços latinos com olhos verdes e cabelos negros lisos até os ombros.
Lembrou-se do trabalho sobre poemas contemporâneos. Começou a pesquisá-los — um poema intitulado A Cidade Vive da poetisa Lucy W. Haskell capturou a sua atenção. O poema retratava uma cidade acometida pela solidão devido à irreflexão de seus habitantes. O poema versava:A chuva acalmara-se; a água ainda corre pelas ruas
arrastando sujeira e pequenas coisas descartáveis.
O ar está mais agradável àqueles que não têm teto.
A água lava o rosto da cidade como lágrimas lamentando
o escárnio que conduz ao desencontro de ações benevolentes.
As ruas são como cicatrizes que nos guiam para a ilusão da consciência;
a inquietação nos impede de intuir
o que as construções têm a nos dizer.
Guiamo-nos pelo desejo de tudo agora;
a cidade é coagida a destruir pessoas e projetos
confinando-os em prisões que os enchem de autoconfiança,
mas tão frágil diante do inevitável.
A cidade não entende por que nasceu sob
‘apartheid’, minuciosamente arquitetada por
planejadores motivados por uma ilusão de superioridade.
A cidade parece mais harmoniosa aos olhos
daqueles que a sobrevoam.
Prédios grandes e pequenos parecem abraçar
uns aos outros como velhos amigos.
Pequenos seres com grandes aspirações movem-se
por ruas e calçadas, sem se olharem, em direção
aos bairros cheios de ansiosidade e conceitos territoriais;
lá de cima, tudo parece fazer sentido:
parques e árvores contornam o desespero que alimenta
a violência cotidiana;
carros, drogas e prostituição competem com vitrines
decoradas para datas comemorativas.
A cidade moderniza-se, mobiliza-se,
mas não se humaniza —
as lágrimas da chuva escorrem apenas pelos prédios.Sua mente deu vida aos versos. Lembrou-se da viela — um pedacinho de chão digno da atenção de um poeta.
2
A cidade de Sleepy Hollow também amanhecera fria. O céu também estava nublado. Poderia chover a qualquer momento. Os moradores também estavam mais melancólicos que o normal. Três garotas do ensino médio conversavam na esquina das avenidas Lawrence com a Beekman: Susan Morse, Alice Cortez e Jane Hunter.
Susan estava entediada. Não aguentava mais ouvir suas colegas falarem sobre a festa que Michelle — uma das garotas mais ricas do condado — dera em sua casa.
Susan levava dois livros consigo: Princípios da Direção Teatral e Psicologia do Ego. Costumava impressionar alunos e professores. Era inteligente e dona de uma leveza peculiar em seu modo de ser. Também era muito bela — dotada de cabelos castanhos longos, levemente ondulados; sobrancelhas naturalmente semiangulares; rosto pequeno com um queixo arredondado e lábios assimétricos e delicados. Sua aparência lembrava muito as mulheres jovens de meados dos anos 70, incluindo o seu comedido anseio por liberdade. Despertava muita admiração e inveja.
“Eu fiquei sabendo que a Michelle ficou com o carinha de Nova York”, disse Jane.
“Rick?”, perguntou Alice. “Quem te contou? Eu não o vi na festa?”
“A Peggy me contou. Eles não se pegaram na festa”, respondeu Jane, com um sorrisinho maroto.
Alice torceu a boca, e disse “Hmm, que inveja.”
Susan sorriu com desaprovação.
“Por que esse sorrisinho?”, perguntou Alice. “Você parece que tem fobia de gente”, provocou ela, expondo-lhe um semblante maléfico.
Susan se manteve indiferente. Costumava fazê-lo como autodefesa emocional.
“Raramente eu te vejo em festas”, disse Jane.
“Você já me disse isso. Por que minha vida pessoal te incomoda tanto? É só fingir que eu não existo”, disse Susan, calmamente.
Jane a olhou de cima para baixo com aquela expressão de desdém, que lhe era peculiar. Ficou sem ação. Não foi capaz de lhe responder à altura. Uma simples colocação a desmontou. Ficou bem claro às suas colegas que Susan ocupava uma importância desmedida em seus pensamentos. Ninguém tinha mais dúvida que a beleza e inteligência de Susan a atormentava além do aceitável — não era segredo à escola que Jane sofria de inveja de Susan.
Alice amou ver sua colega em apuros, mas decidiu fingir ser sua amiga ao provocar Susan: “Você tem fobia de gente ou de garotos?”
Susan sabia aonde elas queriam chegar. Estava no controle. Gostava de esmiuçar suas mentes para descobrir suas verdadeiras intenções. “Não tenho problemas com garotos. Só não gosto de lugares cheios de pessoas vazias”, disse Susan, sem perder a serenidade.
Suas colegas agiram com desdém. Riram de Susan esbanjando um complexo de superioridade típico de quem fingia ter a vida e as pessoas à sua volta sob controle.
Jane reparou nos livros que Susan segurava, e perguntou “Por que você lê essas drogas? Nem tá na aula de teatro.”
“Droga é aquela merda branca que você enfia no nariz quando vai às festas”, disse Susan.
“Você tá nojentinha hoje, em garota?”, disse Jane.
Alice deu risada. Olhou para Jane, e disse “Isso é verdade. Você tá cheirando um pó que não é brincadeira.”
“Vão à merda as duas”, esbravejou Jane.
Alice e Susan riram.
“O semestre tá chegando ao fim. Por que você tá lendo esses livros?”, perguntou Alice.
“A senhora Ferrer me disse que eu posso lhe entregar a sinopse da peça que estou escrevendo”, respondeu Susan.
“Eu ouvi dizer que a professora de teatro é uma megera”, Jane disse a Susan.
“Ela é muito rígida.”
“Eu não sabia que você gostava de teatro”, disse Alice.
“Não tô surpresa. As duas só falam de festas e garotos.”
“Tá com inveja?”, provocou Alice.
“Se você pensa assim, quem sou eu pra te fazer mudar de ideia.”
Susan sabia desconcertá-las sem perder a classe. O ambiente ficou estranho. Despediram-se com sorrisinhos dissimulados e seguiram com suas vidas. Alice virou à direita e seguiu pela Avenida Lawrence. Jane virou à esquerda e seguiu no sentido leste pela Avenida Beekman. Susan seguiu reto pela Beekman, mas no sentido oeste.
*
A fachada de uma farmácia estabelecida num antigo prédio de tijolos coberto por trepadeiras. Susan se aproximou da entrada. O proprietário, senhor Lester, um afro-americano alto com cabelos grisalhos, aproximou-se, e perguntou:
“Como vai senhorita Morse?”
“Estou bem, senhor Lester. Ando um pouco entediada.”
“Por quê?”, indagou ele. “Você é jovem e tem a vida toda pela frente.”
“É difícil explicar.”
“Isso vai passar.”
Ele notou os livros que ela segurava.
“Estou vendo que você se interessa por teatro.”
“Hmm. Pra mim, nada supera o teatro. Ele é mágico.”
Ele olhou para cima. Respirou fundo ao buscar antigas memórias.
“Você está certa. Eu já atuei nos palcos”, disse ele, com um misto de orgulho e tristeza.
Ela sorriu como há muito tempo não o fazia. Ficou tão feliz ao encontrar alguém que já fora do teatro, que deixou de perceber a tristeza em seu olhar.
“Sério? Quando foi isso?”, perguntou ela.
“Eu era jovem. Atuei durante nove anos.”
“Por que não continuou? O que houve?”
“Eram tempos ainda mais difíceis para um jovem negro. Meu pai morreu jovem. Eu tive de abandonar o teatro para ajudar minha mãe. Eram outros tempos.”
“Eu entendo. Não havia muitos papéis para pessoas negras.”
A alegria deu lugar à melancolia. Ela se lamentou de coração. “O racismo pode ter destruído a carreira de um grande ator”, pensou ela.
Ele pôde notar sinceridade em seu olhar.
“O tempo me curou. Tô de bem com a vida”, disse ele.
Suas palavras a trouxeram de volta. Ela sorriu.
“Uma jovem de bom coração não deve se entristecer devido às lamentações dum homem velho”, pensou ele.
“Isso é o mais importante”, disse ela.
“As desilusões devem ficar no passado.”
Ela apertou os lábios a expressar concordância. Era muito jovem. Não compreendia muito bem a relação que os mais velhos tinham com o passado, mas não nascera apenas com inteligência. Também era dotada de muita sensibilidade. Sabia interpretar os sentimentos das pessoas. Ela verificou seu celular para checar as horas. Precisava ir. Despediram-se. Ela seguiu em frente. Senhor Lester intuiu que a simpática garota talvez suportasse um fardo difícil de carregar.
*
Susan se aproximou de sua casa — uma antiga e grande construção de madeira com uma cerquinha marrom que delimitava a frente e as laterais do terreno. Os fundos eram delimitados por uma cerca alta de metal onde havia apenas um estreito corredor. O quintal se localizava no lado esquerdo do terreno, fazendo divisa com outra propriedade. Havia um corredor no lado direito do terreno, que também fazia divisa com outra propriedade. A casa era pouco afastada da rua. Um pequeno gramado com vegetação a separava da cerquinha marrom. Havia também jardins e pequenas árvores ao redor de toda a propriedade.
Ela se dirigiu a caminho do seu quarto. Sentou-se na cama. Colocou a mochila de lado e abriu o livro Princípios da Direção Teatral. Folheou as páginas com a empolgação de uma criança que acabara de ganhar um presente. Uma foto capturou sua atenção: uma apresentação datada de 1977 — um palco decorado com um cenário vivo e real se fundindo à energia de cinco intérpretes atuando para uma plateia cheia. Ficou hipnotizada com a imagem, e pensou “Há mais vida num palco de teatro do que na maioria dos lugares por onde eu passei.”
(continua)...